SANGUE SECO
No dia em que a morte acordou, o dia estava cerrado numa
noite de breu e gelo.
A torre de Babel sofrera de um colapso mental que matou o
ruído e a linguagem. Os pigmeus continuaram a construí-la
até cobrirem o dia do céu numa noite de breu e gelo.
A morte dormia.
Deus estava acordado.
De olhos esbugalhados assistiu à invasão dos seus domínios.
Durante trezentos mil anos de buracos negros puxou pelos
cabelos sem perceber a razão daquele silêncio que deixava
os pigmeus ocupados na cosntrução das paredes que cresciam
até ao seu quintal!
A morte acordou.
Levantou-se, passou a mão pela barba, caminhou ensonada até
à casa de banho e abriu a porta de espelho por cima do
lavatório.
Do respirador vinha uma aragem que lhe arrepanhou a nuca,
alastrou como uma coroa pelas orelhas e desceu da testa
para o nariz.
Um arrepiu puxou-lhe um espirro do fundo da garganta
empurrado pelas tripas do abdómen. A cabeça disparou para a
frente e rasgou a cara na quina da porta do espelho.
O sangue estava seco.